Em respeito às Anas Júlias!


Por Wagner Gonçalves, GGN -

Vivemos tempos sombrios. Impera o ódio e a intolerância. Aqueles que nunca se manifestaram durante e após os crimes da ditadura de 1964 afloram como moscas. Hibernaram depois de 1985, porque, afinal, não dava mais para negar os mortos e desaparecidos, os gritos dos torturados e o movimento pela volta da democracia e das diretas já. Hoje mostram a cara, em manifestações públicas, invadem a Câmara Federal aos gritos, berram  pela volta dos militares, combatem qualquer política pública que beneficie os mais necessitados, demonstram suas raízes racistas, xenófobas e intolerantes, chegando a fazer manifestação na Av. Paulista, em São Paulo, a favor do candidato Donald Trump, um aventureiro milionário que, no voto direto, foi rejeitado pela a maioria dos americanos. Com a queda de Dilma Roussef, por força de um impeachment  sem base legal (“eu posso pedalar, você não”), essas forças do atraso, cônscias agora de seu poder, perderam o pudor. Estão entranhadas dentro de organismos do Estado, dentro de um Governo ilegítimo, que, em poucos meses, quer definir e impor, além do Ato Institucional n. 241 (PEC 55) e quejandos, modificação na previdência, nas aposentadorias, no sistema de ensino, na exploração do petróleo,  tudo de cambalhotada, como se fossem deuses do olimpo num paraíso de néscios. Mas como todo golpe de Estado, por mais cuidadoso que seja, acaba demonstrando a que veio, a criminalização dos estudantes, “que estão desrespeitando as instituições, as leis e a ordem”, é agora a sua face mais visível.

Todos os órgãos policiais e instituições públicas, que pretendam combater o livre pensar, que cerceiam a liberdade de manifestação e de ação de estudantes (ameaçando-os, prendendo-os e algemando-os) são úteis às ditaduras e não às democracias. Agrava-se ainda mais a situação, quando agentes políticos do Estado, a quem incumbe a defesa das liberdades fundamentais e do regime democrático, a título de defender o patrimônio público e a ordem, trabalham como verdadeiros SNIs,  levantando  nomes de lideranças estudantis,  datas de reuniões e manifestações, inclusive dentro de colégios e campus universitários, que outro sentido não tem a não ser criar constrangimentos, fazer ameaças e formar “dossiês” de triste memória.

Tais fatos foram constantes durante a  ditadura militar  de 1964/1985, que tinha nos estudantes seu maior alvo para garantir a “segurança nacional”.                                      
É lição atual o  texto de um advogado, ao apresentar habeas corpus a favor de estudantes goianos em 1968, que foram presos quando se manifestavam contra as deficiências da educação brasileira (com ocupação de escolas): “A juventude está sedenta de carinho, de compreensão e amor. Abra-se-lhe um crédito ilimitado de confiança e amizade. Quem não vislumbra um elo comum de explosão da juventude de todo o mundo? Em Berlim, em Tóquio, Praga, Berkeley, Guanabara ou Goiânia, os epítetos são os mesmos e trescalam à mesma insatisfação e rebeldia. Será que ninguém percebe que o descontentamento do jovem é indício de vitalidade a ensejar a dúvida e a indagação, para opção por um roteiro melhor? São nossos filhos, inundados de civismo, que querem erradicar a hemiplegia educacional, num país de analfabetos; que querem revisão de arcaicas estruturas, fraturadas nos pontos de maior carga e que nos tornam eternos tributários de povos desenvolvidos. Talvez não precisem eles seus objetivos, mas sentem, como ninguém, a falência dos métodos superados. Enfim, a vida, na sua imensa sabedoria, fala pelo espírito puro da juventude, que pode ter excesso de audácia, de inovação ou de desordem, mas que jamais se engajou nas empreitadas dolosas do crime ou do interesse pessoal.”

Seria oportuno que o senhor Michel Temer viesse a público, para segurar o ímpeto dos agentes do Estado, dizer, como o fez o então Marechal Costa e Silva, em 16.9.1968, ao inaugurar a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul: “Eu creio na juventude, como todos os membros do meu Governo, porque se não acreditássemos nela, teríamos de declarar a falência da Nação. Nós queremos governar com a juventude para a juventude, porque estamos no fim de nossas carreiras.”

Como o inferno está cheio de boas intenções, não faliu a Nação, faliu a democracia, o que esperamos não acontecer, em definitivo, no Brasil.
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