Quando você cresce, seu coração morre


Por Eberth Vêncio, Revista Bula -

Meu nome devia ser quase. Podem me chamar de pé-no-saco também, eu não dou a mínima. Eu gosto mesmo é de ler os meus livros, ver os meus filmes, tocar viola e sentir aquele inviolável prazer de estar sozinho. Foi assim ontem, quando assisti a um filme antigo e fui pra cama não dormir, com uma frase-chave patinando nos brejos da minha cabeça: “Quando você cresce, seu coração morre”. Bingo! A fechadura girou. É chocante ouvir isso da boca de uma adolescente de 16 anos, ainda que seja uma personagem do sétima arte. Viajei no tempo.

Eu quase fui o que eu queria ser quando eu crescesse, pois não me tornei um homem livre. Deixei o coração definhar à míngua por causa dos planos que o mundo reservava para mim. O mundo e certos planos que nem de perto eram os meus. Tenho tantos defeitos. Tenho uma passividade que me cansa. Eu quase namorei uma menina-de-trança, a garota mais bonita e popular da escola. Ela nunca soube disso. Que era linda e popular, tava passada de saber.

Os garotos se derretiam por ela em campeonatos de punheta no banheiro. Engravidou aos quinze, do filho de um industrial rico. Pobre Romeu. Amor platônico é quando você cruza por alguém que faz o seu estômago retorcer. Eu devia ter gritado. Eu devia ter vomitado. Qualquer coisa que desse vazão àquela paixão recolhida.

Eu quase fui o primeiro da sala. Em matéria de vida, continuo na dependência. Só sei que nada sei, sei que já ouviram isso antes. Eu quase me tornei um jogador de futebol. A bola simplesmente discordava disso, estranhava as minhas pernas, ribombava nas canelas. Um perna-de-pau a menos a pisotear a grama. Eu quase ganhei um monte de grana. Só que eu não apostava em loterias.

Nunca pensei em me tornar um milionário. Juro. Eu achava os burgueses da escola uns chatos. E como cheiravam à loção de lavanda. Brancos, lisinhos, bem penteados, nauseantes. Quem me apresentou aos desodorantes foi uma professora de português, na maior classe: “Quem sabe, se você usasse…”. Bom mesmo era dormir suado, feder durante os sonhos, deixar a silhueta marcada no lençol. Eu gostava de me sentir sujo, tia. Sim, eu era estranho, eu continuo estranho. Você devia ter me parido na França, mamãe.

Eu quase conheci a Disney. Eu quase tive um All Star azul. Eu quase ganhei um autorama no natal. Eu quase fui sodomizado pelo professor de OSPB num colégio de padres. Alguém se lembra o que significa OSPB? Eu quase prestei vestibular para jornalismo. Eu quase levei pau em anatomia. Eu quase fiquei chapado com o formol da carnificina. Eu quase passei num concurso federal, mas, carreiras estáveis não combinam com candidatos instáveis. Que sorte. Que merda. Será que um dia vou amadurecer?

Eu quase me casei virgem. Eu quase caguei de rir dentro da mata virgem. Eu quase fiz um parto bêbado. Eu quase transei em pé com a recepcionista de um hospital. Eu quase tive o terceiro filho. Eu quase comprei um Mini Cooper seminovo. Eu quase gravei um disco horroroso e disso vocês não tem como reclamar. Eu quase conheci o Cavern Club. Eu quase tatuei o Yellow Submarine no pênis, mas faltou espaço. Eu quase segurei na mão de Paul McCartney quando ele esteve em Goiânia. Sim, Paul McCartney cantou em Goiânia, mas não posso morrer ainda. Antes de bater as botas, preciso descobrir o que a vida, essa escrota, é.

Eu quase embarquei num avião que caiu. Eu quase mandei meu pai a puta-que-pariu. Não se preocupe, papito, não há o que perdoar. Eu quase fiz um gol de letra. Eu quase pichei “Eu te amo” num muro. Eu quase enganei a morte e salvei um bebê. Eu quase me mudei para Jericoacoara e abri uma creperia. Aliás, eu quase vi Deus do alto da Duna do Pôr-do-Sol, mas, um cearense cego que vendia cocos garantiu que aquela imagem dourada, estremecida, não passava do reflexo do sol poente sobre as ondas do mar azul. Eu quase ia me esquecendo: ele perdeu a visão depois de crescido. Seu coração também já tinha morrido.
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