Como as séries de TV podem fazer o preconceito avançar ou regredir

A série 'Um Maluco no Pedaço', que foi ao ar nos anos 90, foi um marco da representatividade negra na TV americana
Consumir ficção com personagens mais diversos leva à empatia do espectador e pode contribuir para desconstruir preconceitos 
 
Por Juliana Domingos de Lima, NEXO -

Grande parte do sucesso de uma obra de ficção se deve à empatia criada pelo espectador com seus personagens. Algumas vezes, quando esse processo funciona bem, a relação com um personagem beira o real - e, quando esse personagem faz parte de alguma minoria, a conexão afetiva criada tende a reduzir os preconceitos do espectador relativos àquele grupo.
Um grupo de pesquisadores em estudos de mídia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês) validou essa tese testando se séries cujos protagonistas são gays, por exemplo, são capazes de impactar na diminuição do preconceito contra LGBTs, no estudo “A Hipótese do Contato Parassocial”.

Na pesquisa, Edward Schiappa e dois outros colegas fizeram uma enquete com pessoas que assistiram ao seriado de comédia “Will & Grace”, que esteve no ar na TV americana no final dos anos 1990 e ajudou a consolidar a aceitação do público por personagens homossexuais.

Foram apresentadas aos participantes frases como “sexo entre dois homens é errado” e “lésbicas são doentes”. Entre os estudados, aqueles que assistiram ao seriado eram, com frequência, menos preconceituosos em relação à comunidade gay.

O resultado poderia indicar, no entanto que esses programas já atraem, a princípio, espectadores mais tolerantes em relação à sexualidade. Mas o trio de pesquisadores também fez o teste com 175 universitários antes e depois de assistirem ao drama “Six Feet Under”, que trata de uma família disfuncional, e constataram atitudes mais positivas em relação a pessoas LGBT depois.

Outro estudo sobre os efeitos de assistir a “Queer Eye for the Straight Guy” teve efeitos semelhantes. Para Schiappa, isso mostra, sem equívocos, que a TV tem o poder de afetar o que as pessoas pensam e sentem em relação a outras - diferentes delas mesmas.

A superação de preconceitos no mundo ‘real’

A maneira mais eficaz de fazer com que pessoas revejam ideias preconceituosas sobre, por exemplo, negros, imigrantes ou gays é fazê-las interagir com pessoas desses grupos. Essa constatação a que psicólogos como Thomas F. Pettigrew, da Universidade da Califórnia, chegaram foi batizada de “teoria de contato entre grupos”, em tradução livre. 

Isso acontece porque, ao misturar pessoas que são parte de minorias com outras que não são - em circunstâncias específicas - os sentimentos de intolerância tendem a se dissipar. A exposição à diversidade que existe dentro daquele determinado grupo minoritário torna a visão sobre a minoria mais complexa e tolerante.

É assim que a interação com personagens gays, trans, negros ou de outras minorias pode atuar sobre a concepção que um espectador tem desses grupos. Semelhante a uma relação interpessoal, a empatia criada através da ficção pode “mudar a cabeça” de quem assiste. 

Por que juntar todo mundo não basta para acabar com o preconceito

A teoria de que o contato com o diferente torna alguém mais tolerante não quer dizer que é possível erradicar o racismo e a homofobia só através de uma “série de jantares estratégicos”, como pergunta ironicamente uma matéria da “NPR”, a rádio pública nacional americana.

No mundo real, sem a mediação da televisão, juntar gays e homofóbicos em uma sala parece uma ideia menos frutífera. De fato, em 1954, o psicólogo Gordon Allport constatou que a “teoria de contato entre grupos” só funciona quando todos os envolvidos se sentem respeitados, confortáveis e seguros.

As pessoas tendem a se relacionar com seus pares e a amizade entre diferentes tipos de pessoa não é tão simples de acontecer organicamente, diz Edward Schiappa.

Em sociedades socialmente segregadas, os programas de TV com representantes de minorias cumprem, portanto, um papel importante na concretização desse contato improvável. E seu sucesso é assegurado pela distância confortável entre as duas partes, mediadas por um meio de comunicação.

E quando os personagens reforçam estereótipos?

Se é verdade que há seriados e programas de TV que fazem um bom trabalho em educar seus espectadores para a diversidade, ter um personagem etnicamente ou sexualmente diferente da norma não basta para contribuir nessa educação.

Srividya Ramasubramanian, professora de comunicação na Texas A&M University, afirma que não é só uma questão de esses personagens estarem lá, mas de como são representados. Colocados em papéis degradantes e sem profundidade, eles na verdade reforçam preconceitos.

Em uma pesquisa com 450 jovens caucasianos, ela constatou que a exposição a personagens negros estereotipados na televisão aumentava a probabilidade de associar características como “preguiçoso” ou “bandido” às pessoas negras e diminuía a propensão a apoiar políticas afirmativas voltadas para esse grupo.

Em 2013, a professora fundou o “Media Rise” uma organização sem fins lucrativos que quer ligar quem produz o entretenimento televisivo a cientistas sociais, professores e ativistas, com o objetivo de colaborarem em produções mais conscientes.

Para ela, séries como “Orange Is The New Black” e “Scandal” são um começo nesse sentido. Mas a professora avalia que o desafio de convencer o “mainstream” de que personagens complexos e diversos também são entretenimento rentável permanece.
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