A obsessão por celebridades é um soco no estômago de nossa autoestima


Por Lara Brenner, Revista Bula

Abro um portal de notícias e me dou conta de que a cantora Selena Gomez, 24 anos, acaba de bater o recorde de likes da história do Instagram. Seis milhões de pessoas curtiram uma de suas fotos. Sequer consigo imaginar um lugar específico em que tanta gente consiga se agrupar lado a lado, sem que isso provoque uma alteração no eixo da Terra. Mas, por incrível que pareça, reuniram-se em volta de um pequeno quadrado de moldura branca onde a cantora segura sensualmente uma garrafa de Coca-Cola.

Selena ocupa agora o frágil topo desse gigante em que a rotatividade segue na velocidade da luz. Atores, músicos, dançarinos, blogueiros, escritores e subcelebridades estão a um clique de distância. Suas referências culturais e cortes de cabelo, os lugares que frequentam… Dá para ver o mundo com seus olhos ao mergulhar na vida de cada um deles. O que outrora eram imagens raras, escassas e impressas nas revistas hoje virou puro dinamismo capaz de inundar minutos, horas ou mesmo uma vida inteira de meros mortais. Com tantas redes sociais e coberturas midiáticas, deixar intoxicar-se pela vida dos famosos parece natural, mas pode ser enlouquecedor.

Curiosidade por quem está no topo não é privilégio deste século. A vida da corte e da nobreza, bem como de certos intelectuais renomados, sempre foi cercada de bochichos e cochichos. Desde sempre, as pessoas curtem o escapismo das fofocas e unem-se em torno de um mesmo ídolo, respirando juntas o aliviado ar de quem sai de suas vidas normais e vive algo que pareça extraordinário.

Formar satélites em torno de coisas em comum dá certo senso de identidade, de existência. Alimenta uma imposição psicológica. No entanto — que não soe nostálgico! — havia algo de romântico, inocente e imaginativo em poder preencher as lacunas daquilo que não emergia sobre a vida da casta idolatrada. As redes sociais e portais de fofoca, massivos e autoritários, massacraram aquele véu pueril que permitia transitar entre realidade e conjectura.

Hoje, com as redes, não é difícil acreditar que tudo o que se esteja acompanhando seja 100% verdade. As vidas editadas em vídeos de 15 segundos, as poses espontaneamente forjadas, as fotos íntimas calculadamente vazadas, os sorrisos de dentes brancos, que têm feito a festa — e o bolso — de dentistas competentes… Até as coisas mais triviais — como tomar café da manhã, ir ao supermercado, fazer manutenção do carro — são registradas com legendas engraçadas, reflexivas, acompanhadas de emoticons simpáticos, tudo a favor de um carisma necessário àqueles que vendem uma vida de arco-íris.

Mesmo gafes e desabafos são cuidadosamente trabalhados para que quem os acompanha sinta mais empatia. Vivem tão intensamente suas personas que em determinado momento já não distinguem bem ator e personagem, acreditando-se realmente grandes, como se o túmulo do esquecimento — real e digital — fosse capaz de perdoar alguém.

“Toda pessoa famosa é meio decepcionante na vida real, porque ninguém consegue ser a essência editada de si mesmo”, disse uma vez Mel Brooks, ator experiente e encouraçado pela frieza da realidade humana. Sem muitos floreios, a verdade é que, na maior parte do tempo, qualquer um de nós é bem sem graça, protocolar, obrigacional, cartesiano. Uns com muita carga, outros nem tanto, mas a rotina é uma mãe mais ou menos democrática, que mais cedo ou mais tarde retira considerável parte do glamour que é a novidade contínua. A grande graça da vida dos famosos é produto de nossa deliberada ignorância sobre a integridade de seus dias.

A questão é que a edição da realidade tem produzido idolatrias doentias, fomentado ainda mais a miséria das vidas normais. Idolatra-se porque a vida fica mais suportável com o que é sintético. Idolatra-se porque é fácil fazê-lo, e facilidade não raro se confunde com felicidade. É a busca do que falta dentro do que não existe.

A obsessão por celebridades é um soco no estômago de nossa autoestima. Mas ele vem disfarçado, carregando um buquê de emoticons floridos antes de nos acertar as vísceras.

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