“E se eu fosse puta”: o livro da primeira travesti, prostituta e doutoranda do Brasil

Amara Moira
Por Nathali Macedo, DCM -
 
Amara Moira é travesti, prostituta, escritora e doutoranda – e se orgulha de cada um destes títulos. A definição criativa que ela atribui a si mesma é uma síntese do que esperar do seu trabalho: “travesti que se descobre escritora ao tentar ser puta e puta ao bancar a escritora.”

O seu livro “E se eu fosse puta”, lançado este mês pela Hoo Editora, nasceu do blog (com o mesmo nome) da autora na internet.

Trata-se de uma obra autobiográfica, crua e visceral, com a própria Amara e suas vivências. Ela conta a história de sua transição, as suas descobertas – como prostituta, como escritora e como travesti – e propõe uma discussão urgente e necessária em tempos de ascensão de um feminismo radical que tem ouvido cada vez menos as mulheres: o lugar da prostituição na luta feminista.

Muitas das adeptas do RadFeminismo consideram a prostituição “estupro pago.” Argumenta-se que a prostituição não é uma escolha: é, antes disto, uma consequência imposta pelo sistema patriarcal que marginaliza algumas mulheres no intuito de apoderar-se de seus corpos.

Este argumento sempre me pareceu, a despeito do meu alinhamento ao feminismo emancipatório, e não ao RadFeminismo, muito coerente, a não ser por um detalhe: o feminismo radical fala sobre prostituição sem ouvir as prostitutas, que, em contrapartida, argumentam que trabalho sexual também é trabalho e acreditam que a luta feminista deveria caminhar no sentido de conquistar melhores condições de trabalho para as profissionais do sexo.

Polêmico, é verdade, mas há nisso tudo algo inquestionável: o feminismo que não ouve as mulheres (sejam prostitutas, ricas, pobres, brancas, negras) não é libertário. E Amara quer – e tem conseguido – ser ouvida.
 
“Quando querem abolir a prostituição, querem ao mesmo tempo nos obrigar a transar de graça, nos obrigar a abrir mão do valor que esse saber assume em nossa sociedade, independente do que esse trabalho signifique para nós”, escreve a autora, contrariando os argumentos anti-prostituição.

Ela conta ter percebido que “é melhor transar sendo paga do que dando-se de graça”, e, sobre isso, um adendo:

para as mulheres, o sexo muito dificilmente é uma via de mão dupla, porque até a educação sexual é patriarcalizada. Pagas ou não, no sexo heterossexual nós servimos, na maioria das vezes, apenas para o deleite masculino – e muito dificilmente para o nosso próprio deleite, porque a nossa sexualidade é podada quando não serve ao patriarcado.

Por esta lógica, a questão não é apoiar ou não a prostituição, uma vez que o abuso não está no modus operandi, está na própria essência do sexo heterossexual, que precisa ainda ser muito desconstruído para que seja, para as mulheres, tão satisfatório quanto é para os homens.

Para além da discussão polêmica que o envolve, “E se eu fosse puta” é, antes de tudo, um puta livro de uma puta autora talentosa.

Os bons livros, eu diria, são aqueles com conversam com a gente. E ler “E se eu fosse puta” é quase como tomar uma cerveja com Amara. É como ouvir uma história pesada contada de um jeito leve.

A escrita é honesta, direta, decidida e sem firulas: Amara sabe quem ela é e quer mostrar isso ao mundo. “E se eu fosse puta” é leitura obrigatória para quem quer pensar um feminismo que liberte todas as mulheres.
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