Nilson Lage: o que uma vida escreve em muitas vidas não se apaga


Por Fernando Brito, Tijolaço

A pior coisa do mundo é a ingratidão.

É sinal de coisas ruins, como a soberba.

Muitos talvez não saibam, mas este blog tem um colaborador que está mencionado aqui muito menos do que colabora, porque não passa um dia sem que eu me aproveite de seu olhar atento sobre o Brasil e o mundo e da capacidade extraordinária que tem de analisar os fatos e a versão dos fatos. Capacidade nutrida, em porções generosas, pela inteligência e pela experiência de 60 anos de jornalismo.

Nilson Lage, que hoje completa 80 anos, meu professor na UFRJ e formador de jornalistas aqui no Rio, em diversas faculdades, e também em Santa Catarina, onde se aposentou, há dez anos, continua a ensinar. A muitos, a mim.

Não era “bonzinho” como mestre. Mas era –  sei que milhares de seus alunos compartilham esta experiência comigo – o mais interessado em ensinar, em nos desafiar a sermos capazes e a sermos capazes de melhorar.
Como tantas vezes fiz, aproprio-me de suas palavras para entender em que elas podem me alimentar e, como os peixes, alimentar a mais alguém.

Viver tem sido experiência fascinante. Vivendo, aprendi que o que merece ser dito não pode ser dito, frase que copio de Wittgenstein: experiências têm um aqui-e-agora que não se transmite. Descobri que a memória é como um dicionário de conceitos acoplado a cenas marcantes em que alguns detalhes são preservados e outros se perdem: assim o passado repassa-me em fragmentos de ação e emoção. Revendo os personagens, concluo que tanto os justos quanto os canalhas me foram úteis; fico devendo, a uns pelo que me iluminaram e a outros pelo que me tornaram mais forte.
 
Aí entra o que mais me orgulha: nunca fiz mal a ninguém, nunca explorei ninguém, nunca cedi além do que devia. Paguei caro por isso, mas valeu a pena.

Nestes tempos em que o jornalismo tanto se confunde com vaidade, com ser supérfluo e feroz, é um bálsamo ouvir isso de quem participou de toda a evolução da profissão, desde que as reformas do Diário Carioca, nos anos 50, começaram a afastar o jornalismo do “beletrismo”, momento em que partilhava essa experiência com outra glória do jornalismo que é Janio de Freitas.
Lage continua ensinando todos os dias a gente:  a pensar, a ver, a sentir e a dar sentido ao que escreve.

Não posso, então, deixar de fazer este reconhecimento público, para além dos círculos limitados de Facebook, a alguém que, por décadas e ainda hoje, tem a mente viva porque – como os só seres vivos fazem – é capaz de absorver, de processar o que absorve e sintetizar em ideias que nutrem.

Socorro-me, para descrever isso, dos versos de Caetano Veloso: Luz do Sol/que a folha traga e traduz/ em verde novo/em folha, em graça / Em vida, em força, em luz…

PS: Onde lê-se hoje, leia-se ontem. É que com os problemas técnicos do site o texto ficou esperando também eu “tirar o atraso” das coisas que eram notícia e, no meu tempo, jornalista não era noticia. Mas isso aqui não é notícia, não. É homenagem e gratidão.
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